Buscar
  • Sabine

A Personagem

Prosa poética (ou poesia contada) direto do livro "Gorda - e outros textos"

Foto de Deborah Schorr que deu origem à capa do livro.

Gorda - e outros textos foi autopublicado no finalzinho de 2018 pela plataforma KDP da Amazon. É um expurgo, uma série de gritos em forma de prosa poética (ou poesia contada), compilando dramaturgia da minha época de LAC (Laboratório de Artes Cênicas da PUC-Rio), textos mais antigos e algumas porradas verbosas que foram me saindo dedos afora enquanto eu digitava direto na página diagramada com uma sensação de urgência, uma sensação de que, o que quer que aquilo fosse, 'ainda não estava pronto'.


Gorda também tem muito a ver com certos ritos de passagem que os quarenta anos me trouxeram de presente. Entre eles, a primeira vez em que posei nua, para o trabalho monográfico da Deborah Schorr. Essas fotos viraram exposição e ilustram o livro. Também tem a ver com a primeira vez em que li o texto que intitula o livro em público, mostrando que "em minha barriga estão todas as veias abertas da América Latina". Como bom e-book que é, foi lançado apenas virtualmente e até já escrevi por aqui sobre isso.


Hoje, queria compartilhar "A Personagem", texto pelo qual tenho muito carinho e que já tive a oportunidade de fazer como atriz e de apresentar em saraus. Dizê-lo me torna comprometida com e empenhada na tarefa de seguir todos os dias. Depois, digam-me o que vocês acharam!



A PERSONAGEM


Exposição "Vênus" de Deborah Schorr no LAC/PUC-Rio em junho de 2018.

Há um espaço em mim que é vazio e suga a vida aos borbotões, ama amar a vida, como um buraco negro vaginal e desavergonhado em busca do gozo. Essa personagem se recusa mais do que aceita. O amor nela é gigante e ela não precisa ser curada. Sua barriga é ampla, mãe de todas as ideias, e não digere ideias, mas as arrota, aos borbotões. Ensaio e represento, mas o papel é exaustivo e prefiro vivê-lo vivo, cru como um sushi ou coisa que o valha. Crua assim, mas nunca sangrando, sou corte limpo de mim mesma à mostra num cesto de palha, numa rua ou num chafariz. Hidrato canos por onde escorrem enganos, medos, mortes pequenas como um orgasmo, quando sentimos que não há nada além de estar ali. E ela se apossa de mim como se em mim baixasse, passeia com meu corpo para lá e para cá, arrancando aplausos de pessoas que não sabem que coço, cago e choro baldes. Nem eu mesmo sei dessas coisas, mas ela? Dança. Tecidos epiteliais e adiposos dançam o dia sem pressa de ser feliz. Ser usada assim é sempre muito bom, porque parece que sou eu quem uso, sou eu quem abuso, controlo. Ilusão clara: não tenho nome, nem fim.

2 visualizações

SIGA-ME

  • Amazon ícone social
  • Instagram - Black Circle
  • Facebook Social Icon
  • Twitter Social Icon
  • YouTube Social  Icon

© 2019 por SABINE MENDES MOURA Orgulhosamente criado com Wix.com