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  • Sabine Mendes Moura

O escritor 3.0

Público instantâneo e a prática da escrita

Existe vida saudável na era da 'produção de conteúdo'?

Se você é o que o um dia chamaram de #nativodigital, provavelmente publica textos em redes sociais, checa e-mails, tem um blog, um site ou uma página no Face para cada projeto novo que quer divulgar e compartilha conteúdos lidos (às pressas?) a partir de suas indicações temáticas (dá uma olhada nos títulos, nas fotos, nas hashtags, nas palavras-chave e manda ver). Inúmeras vezes por dia! Além disso, interage com os textos publicados e compartilhados por outras pessoas, construindo, colaborativamente, um gigantesco livro virtual de sua passagem por esta terrinha sobre o qual não tem muito controle.


Imagine tudo o que você escreve em apenas uma semana de trabalho virtual, organizado em uma publicação linear, encadernada, minimamente editada e coerente, e pode ser que você obtenha um romance-relato sobre sua vida atual. Um fotolivro talvez (#instalovers). Em dois ou três volumes. Com direito a anexos e notas de rodapé...

MAS NEM TODO MUNDO NASCEU DE CARA PARA A NET...

Pois é, eu sou de outra era. Algo que chamaram de #imigrantedigital em Educação. Cresci no pré-Internet e, se você é como eu, pode estar tentando entender como se posicionar diante de toda essa nova organização espaço-temporal da #produçãodeconteúdo. Parece que essa é a realidade atual e, deste lado da cerca, o desafio ganha ares distópicos. É como se existisse um 'público macarrão instantâneo' potencial para absolutamente qualquer coisa publicada virtualmente. Pronto em (bem) menos de 3 minutos. É um mundo, inclusive, em que escritos (já padronizados) como "curtindo o findi" geram ansiedade caso não sejam curtidos em menos de 3 minutos.


Nessa terra, fala-se de #autenticidade, como fosse a garantia para conquistar qualquer coisa: desde o sucesso de sua pequena empresa até o encontro de sexta à noite. Ainda não é um sucesso? Falta autenticidade, sem dúvida. Nem vou me meter a discutir isso, como não especialista que sou. Não sendo nativa, consigo, no máximo, sentir que "imito" a galera que nasceu tendo a net como dada. Suspeito que, caso você tenha imigrado também, sua relação com o território digital pode se parecer com a minha: apropriei-me das ferramentas, mas vejo toda uma vida fora delas (e sinto falta da autenticidade checada 'em pessoa' às vezes).


UM MUNDO DE #ESCRITAS


Uma das coisas mais interessantes, a meu ver, nesse admirável mundo novo, é que se trata de um mundo de escritores. Estou acostumada a ouvir professores de diferentes áreas dizendo coisas como "jovens não escrevem mais" ou "as pessoas não sabem mais escrever" e, no entanto, nunca se escreveu tanto. Se suspendermos, por um instante, os julgamentos acerca do que seja a boa ou má escrita, percebemos que quase todas as nossas formas de interação, hoje, passam pela escrita. E se ampliarmos o conceito de texto para além do escrito, incluindo imagens e áudios, tornamo-nos, todes, roteiristas em eterno trabalho. Parece-me que a construção mesma de quem somos, socialmente, depende do trabalho de edição desses conteúdos que circulam por aí: algo que pode ser bastante difícil de entender para quem imigrou no processo.


Nesse panorama, há quem se preocupe em criar hierarquias. Diferenciar escritores - quem usa a escrita como forma de realizar qualquer tipo de tarefa - de Escritores - os profissionais que se especializam em determinados gêneros textuais fazendo deles o seu trabalho. Há, de fato, uma razão para essa preocupação, já que é preciso defender os direitos trabalhistas de nossa classe, em um cenário que parece dedicado a suprimi-los. No entanto, neste texto, estou mais interessada no impacto que essa tecnologia digital pode ter nessa nossa tarefa de escrever, como profissionais da escrita, e 'ter uma vida ao mesmo tempo'. Ou seja: escrever o que queremos escrever e 'dar conta' das diversas outras atividades que compõem nossa vida. A tecnologia ajuda? Atrapalha? O que podemos fazer a partir dela?


Como não existem respostas prontas e únicas, vou compartilhar um caso, como de costume. Meu primeiro livro publicado foi o romance By the way - havia um inglês no meio do caminho, em 2013. Foi também a primeira experiência que tive com como a internet poderia influenciar minha escrita. Antes disso, eu havia publicado um conto em uma coletânea de ficção científica (X - a última incógnita, em Solarium, vol. II, Editora Multifoco, 2009) e alguns textos acadêmicos.



Capa da incrível Cecilia Leal

By the Way começou como um #blog, criado em 2007, em que eu contava minhas experiências em sala de aula, como professora de língua inglesa. Na época, eu estava trabalhando em três outros livros e não tinha a intenção de transformar aquelas postagens em uma obra linear. Na verdade, só queria dar início a um diálogo com outres colegas de profissão. A inspiração para criar o blog veio do Portal da Educação Pública, que havia lançado um fórum chamado A Voz do Professor. Uma colega da escola onde eu trabalhava sugeriu que eu escrevesse alguma coisa por lá. Animada com os comentários que recebi, acabei decidindo ampliar aquele texto em um site próprio.


DE BLOGUEIRA DE FIM DE SEMANA A AUTORA DE NÃO FICÇÃO


Nos textos do blog, acabei revisitando toda a minha trajetória de estudante e educadora, despretensiosamente. Até então, me entendia como escritora de ficção, em geral, e de ficção científica, em particular, mas o retorno que eu fui recebendo me encorajou a seguir. Virei professora universitária, o blog ficou abandonado por quase cinco anos, mas, volta e meia, recorria às histórias contadas lá em minhas aulas de formação de professores. Foi quando a ficha caiu: se eu organizasse essas postagens e incluísse algumas de minhas experiências posteriores, teria um livro.


E foi o que fiz. Sem a resposta imediata de meu primeiro público, By the Way não existiria. Aqueles comentários e indicações de interesse foram, de muitas maneiras, coeditando o livro. Na verdade, eu nem teria me enxergado como autora desse tipo de obra. Mas a influência 3.0 não terminou aí (se bem que, naquela época, dizíamos 2.0). Para a publicação, trabalhei com uma equipe de três pessoas, incluindo uma produtora que organizou o lançamento e as vendas on-line, criou meu site de autora e uma página no Face para divulgação. De repente, eu estava imersa em um mundo altamente exigente de criação de conteúdo para alimentar todas essas plataformas. O livro estava escrito - e eu já estava partindo para outras aventuras criativas -, mas continuava me exigindo constantes (re)apresentações de conteúdo que precisavam ser dinâmicas, interessantes e diárias.


ORGANIZANDO A CASA...

Logo, criei uma agenda. Para dar conta das postagens que precisava fornecer, sentava-me uma vez por mês e produzia tudo o que iria ao ar naquele período: um trabalho que levava algo entre cinco e oito horas. Era uma forma de demarcar a fronteira entre a 'produção de conteúdo' e a 'escrita criativa para novos projetos'. Essa organização da cabeça em diferentes personas foi bastante trabalhosa e dependeu de muita disciplina.


Havia a escritora do cotidiano, que responde a amigues nas redes e interage espontaneamente; a escritora-divulgadora, que alimenta a obra finalizada sendo vendida e a "escritora puramente criativa", por falta de um nome melhor.

Esta última era aquela que, em meio a toda confusão, precisava desligar-se de qualquer imagem de edição ou engajamento para, simplesmente, desencavar, com cuidado e delicadeza, a nova ideia que estava desenvolvendo. Vale lembrar que isso tudo ocorreu muito antes de que as técnicas de produção massiva de conteúdo para as redes fossem figurinha fácil no mercado. Hoje em dia, é possível comprar um pacote semipronto e já calendarizado de citações, fotos, estilos de stories, etc., o que não necessariamente resolve o problema de ninguém (aí, entra a tal questão da autenticidade, do público-alvo, da persona-buyer e mais um sem-número de nomes que, sinceramente, já são demais para mim). Aprendi bastante com By the Way. É claro que sempre podemos nos recusar a participar desse mundo, mas as vantagens no que diz respeito à descoberta de públicos, ao compartilhamento do próprio trabalho e às potenciais colaborações na escrita parecem ser infinitas. O que ficou, para mim, como lição é a necessidade de preservar espaços para os diferentes papéis que exerço como escritora, aprendendo a organizar os tempos em que atuam no cotidiano. Como não me tornar refém dos comentários, burocrata do marketing ou isolada em minha criação a ponto de que uma persona se ressinta com a outra? Eis o desafio.

E, nesse vaivém de escritas, sigo produzindo...



A PRIMEIRA VERSÃO DESTE TEXTO FOI PUBLICADA PELA REVISTA VIRTUAL NINHADA (2016), NA COLUNA COMO ESCREVER (E TER UMA VIDA AO MESMO TEMPO), COMO PARTE DO PROJETO DE ESCRITA COLABORATIVA DE MESMO NOME, PREMIADO PELO PROAC/SP.

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